3 de julho de 2026

WONCA Europe 2026: Brasil marca presença com produção científica e fortalecimento da cooperação internacional


De 30 de junho a 3 de julho de 2026, Paris recebe a Conferência WONCA Europa 2026, marcando o retorno do evento à capital francesa após 20 anos. Realizada no Palais des Congrès de Paris, a conferência reúne médicos e médicas de família e comunidade, docentes, pesquisadores(as), residentes e demais profissionais da Atenção Primária à Saúde de toda a Europa e de diferentes regiões do mundo.

Com mais de 200 sessões científicas, a programação aborda temas como acesso aos cuidados de saúde, envelhecimento populacional, doenças crônicas, saúde mental, transição ecológica, saúde digital e inteligência artificial. Inspirada no lema francês Liberdade, Equidade e Fraternidade, a edição de 2026 propõe reflexões sobre autonomia profissional, acesso equitativo à saúde e fortalecimento da colaboração entre profissionais e sistemas de saúde.

A delegação brasileira participa ativamente da conferência por meio da apresentação de trabalhos científicos, intercâmbio de experiências e fortalecimento das relações institucionais com sociedades médicas de diversos países.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), Fabiano Guimarães, a participação no evento amplia as oportunidades de desenvolvimento da especialidade. “Participar do WONCA Europe tem sido uma experiência enriquecedora. A qualidade das apresentações e debates demonstra o compromisso da especialidade com uma prática baseada em evidências, inovadora e centrada nas pessoas e nas comunidades.”

Fabiano destaca ainda a importância da presença institucional da SBMFC no cenário internacional. “Estar presente como presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade também fortalece a inserção internacional da MFC brasileira. Além da atualização científica, o evento permite estabelecer contatos estratégicos com lideranças e sociedades de outros países, abrindo oportunidades para parcerias, intercâmbios e projetos de cooperação que podem contribuir para o desenvolvimento local da especialidade.”

Fabiano Guimarães, presidente da SBMFC, Viviana Martinez-Biach, presidente da Wonca e Elson Romeu Farias, Supervisor do programa de residência de MFC do Centro de Saúde Escola Murialdo. Crédito: arquivo pessoal/Fabiano Guimarães

Entre os trabalhos brasileiros apresentados está a experiência conduzida pela médica Marcella Lima Seibert Grigato, enquanto participante do Programa Qualifica-APS do Instituto Capixaba de Ensino e Pesquisa e Inovação em Saúde, apoiada pelo seu docente e médico de família e comunidade Felipe Alves dos Santos, em parceria com a médica de família e comunidade Fernanda Pires Dilly, do Programa Mais Médicos para o Brasil do Ministério da Saúde, desenvolvida na Estratégia Saúde da Família de São Luís, em Santa Maria de Jetibá (ES), com o apoio da equipe de enfermagem da unidade e da Secretaria Municipal de Saúde.

O estudo apresenta uma estratégia voltada à melhoria da comunicação com pacientes pomeranos por meio da criação de etiquetas ilustradas na língua pomerana, buscando facilitar a compreensão das orientações médicas quanto ao uso correto dos medicamentos e aumentar a adesão aos tratamentos de hipertensão e diabetes.

A iniciativa teve como objetivos ampliar a adesão terapêutica, fortalecer a comunicação entre equipe de saúde e usuários, reduzir erros de administração de medicamentos devido à barreira linguística e promover o respeito à identidade cultural da população, contribuindo para a inclusão e a equidade no acesso aos serviços de saúde.

Segundo a autora, a implementação das etiquetas mostrou que uma solução simples pode gerar impactos significativos na prática assistencial.

“A implementação de etiquetas ilustradas em pomerano para auxiliar na compreensão dos tratamentos revelou-se uma solução simples, porém eficaz, para ampliar a adesão dos pacientes. A adaptação das informações para a língua local permitiu que os usuários compreendessem melhor o uso correto dos medicamentos e seguissem adequadamente as orientações médicas.”

A experiência também resultou em melhora dos indicadores relacionados à hipertensão e ao diabetes, reforçando a importância de incorporar aspectos culturais e linguísticos no cuidado em saúde.

Felipe Alves dos Santos, Marcella Lima Seibert Grigato e Fernanda Pires Dilly, integrantes da comitiva brasileira.

Felipe Alves dos Santos, Marcella Lima Seibert Grigato e Fernanda Pires Dilly, integrantes da comitiva brasileira. Crédito: arquivo pessoal/Fernanda Pires Dilly

Outro representante brasileiro, o médico de família e comunidade Elson Romeu Farias, supervisor do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade do Centro de Saúde Escola Murialdo, da Escola de Saúde Pública da SES/RS, destacou o alto nível científico da conferência e as reflexões que podem inspirar avanços na Atenção Primária à Saúde brasileira.

Um dos momentos que mais o marcou foi a conferência de abertura, O Museu como Laboratório da Empatia”, que propôs uma aproximação entre arte e cuidado em saúde. A apresentação mostrou como museus e a Medicina de Família e Comunidade compartilham uma mesma missão: aprender a enxergar as pessoas em toda a sua vulnerabilidade para oferecer um cuidado mais humano. Obras de artistas como Delacroix, Frida Kahlo e Edvard Munch foram utilizadas para refletir sobre autonomia, sofrimento e subjetividade, enquanto os Nymphéas, de Claude Monet, e a técnica japonesa do kintsugi simbolizaram a capacidade de transformar fragilidades em potência e cuidado.

Elson também destacou debates considerados estratégicos para o futuro da especialidade. Entre eles, as discussões sobre multimorbidade na Atenção Primária, com propostas para reorganizar os serviços e orientar novas agendas de pesquisa; o reconhecimento do esgotamento dos profissionais da APS, defendendo mudanças estruturais nas condições de trabalho em vez de soluções centradas apenas na resiliência individual; e a saúde planetária, tema que apresentou o conceito de ecoprescrição, baseado em quatro princípios: prescrever melhor, prescrever apenas quando houver indicação clínica, reduzir os impactos ambientais das prescrições e considerar a pegada de carbono dos medicamentos quando existirem alternativas terapêuticas equivalentes.

A participação brasileira na WONCA Europa 2026 reafirma o protagonismo da Medicina de Família e Comunidade do país na produção científica internacional e evidencia o compromisso da SBMFC com a troca de conhecimentos, a inovação e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde.

Mais informações do evento podem ser conferidas no site oficial: https://woncaeurope2026.org/ e também nas redes sociais da Wonca: @woncaworld