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Entrevista com Joo Sequeira Carlos 10/10/2011

Entre Países Irmãos


Presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG), João Sequeira Carlos traça um paralelo da medicina de família e apresenta as similaridades nas conquistas e desafios da especialidade em Portugal e no Brasil. Confira os principais trechos da entrevista, disponível na íntegra no site da SBMFC.

  

 

Em média, quantos Médicos de Família e Comunidade são formados por ano em Portugal?
Atualmente, o número vem crescendo bastante. São aproximadamente 300 residentes por ano entrando no programa de residência médica em MFC. Já conseguimos alcançar um número ‘mágico’ de mais de 30% das vagas nas residências em hospitais dedicadas à medicina de família. Claro que o ideal seria chegar aos 40%, mas estamos com um número bastante positivo. Isso é muito importante, entretanto, ainda temos em Portugal o problema da falta de médicos de família. Houve um salto muito grande no número de aposentadorias nos últimos anos. Isso tende ainda a se acentuar nos próximos anos. A maioria dos médicos de família estava na faixa de idade para se aposentar. Houve uma mudança no sistema previdenciário no país que permitiu condições especiais para antecipar a aposentadoria. E assim houve um desequilíbrio entre o número de profissionais.

Existem MFCs atuando fora do sistema de Atenção Primária?
Eu diria que 90% dos médicos de família em Portugal atuam na atenção primária de saúde no serviço público. Entretanto, assim como acontece no Brasil, nós temos um número considerável de profissionais que migram para o sistema privado com o passar dos anos. Nesse aspecto, apesar de parecer uma opinião controversa, eu vejo alguns pontos positivos. O reconhecimento da importância da especialidade vem crescendo de tal forma, que os planos de saúde já incorporam nos seus serviços a medicina de família e comunidade. Para mim, é o ponto de reconhecimento máximo da imagem da MFC. O setor privado ter colocado dentro da sua estrutura departamentos de medicina de família.

Como avalia essa questão do excesso de prevenção?
É preciso analisar que existe claramente um choque de interesses. E isso é resultado de algo que não está funcionando como preconizamos para as redes de atenção à saúde e integração dos cuidados. Eu penso que, acima de tudo, esta questão é realmente importante em função da falta de integração, de diálogo e de articulação nos cuidados entre a atenção primária de saúde e atenção especializada, dita hospitalar. É claro que se de um lado nós defendemos um determinado procedimento preventivo, e o médico de família tem na sua prática a prevenção da doença e a promoção da saúde, não queremos também cair no extremo oposto de fazer tudo e pedir todos os exames para um doente, ao custo de não se pedir nada. Temos que encontrar este meio termo. E penso que ele está justamente no diálogo com outras especialidades. Se as normas de orientação clínica no sentido da prevenção de doenças fossem feitas logo no início entre um médico de família e as eventuais especialidades envolvidas, certamente estaríamos protegendo os pacientes desse excesso de cuidados em saúde, da iatrogenia, e assim estaríamos atuando na prevenção quaternária. Agora, o alerta que eu deixo, e nós em Portugal estamos sempre preocupados em levantar esta questão, é de não cair em extremos de expor os pacientes a procedimentos em excesso, mas também não fazer o oposto, de deixá-los desprotegidos de procedimentos preventivos que poderiam evitar o aparecimento de doenças. O melhor check-up está numa boa conversa. Em ‘Virtus in Medium Est’, ou seja, no meio está a virtude. E eu defendo muito essa atitude, com os colegas de especialidade e demais profissionais na área de saúde.

Qual é o atual cenário da Atenção primária em Portugal?
Começamos um processo de reforma da atenção primária, que nós chamamos de cuidados de saúde primários, em 2005. Um dos principais pontos dessa reforma está exatamente no foco na equipe de saúde, não apenas no médico de família, mas na equipe da saúde. Outro ponto interessante da reforma, que ainda está em curso, sendo um fato conhecido e histórico, é que a Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral não emprestou apenas seus conceitos e ideologias, como também recursos humanos. Na época, a entidade cedeu o seu então presidente, Luis Pisco, ao Ministério da Saúde. Ele ficou um período afastado da APMCG atuando diretamente no Ministério para operacionalizar esta reforma.

O senhor citou o foco não apenas no MFC, mas na equipe como um todo. Essa também era uma dificuldade, assim como no Brasil?
Exatamente. Em Portugal, já existia essa integração em unidades de Saúde clássicas, nos centros de saúde antes da reforma. A reforma veio para introduzir isso como uma obrigação. Não uma obrigação em termos de forçar as pessoas a trabalharem em equipe, mas fazê-las sentir-se imbuídas no sentido de estimular desde o início a formação das equipes. A reforma teve um aspecto bastante especial, que foi um voluntarismo por parte dos profissionais. As equipes se candidatavam à formação de uma unidade de saúde familiar em uma base voluntária. E a partir daí já se formava uma equipe de confiança mútua onde as pessoas se conheciam e tinham um conhecimento mínimo sobre o trabalho coletivo. O resultado disso, calcula-se, só pôde ser positivo. Pois, em uma base de confiança e articulação de um trabalho conjunto, essa equipe de saúde familiar apresenta um trabalho muito mais completo, valorizando a atuação individual de médicos, enfermeiros e assistentes clínicos ou sociais.

Qual é a porcentagem de cobertura das unidades de Saúde da Família em Portugal em relação ao território?
As unidades de saúde da Família neste momento representam um pouco mais de 1/3 de cobertura do país em termos de cuidados de saúde primária, o que vocês chamam de atenção primária à saúde (APS). Já conseguimos alcançar esse número tanto em termos de cobertura da população quanto do número total de unidades de saúde da família. Nós temos aproximadamente 300 unidades de saúde familiares em funcionamento. Cada uma atende, no máximo, 2 mil pessoas. Uma unidade de saúde família deve ter 100% de cobertura daquela região. Em uma unidade não pode haver usuário sem médico de família. Está é uma característica obrigatória. E por isso que as unidades ao serem implantadas, e nós estamos discutindo essa questão, estão proporcionando a mais pessoas a possibilidade de atendimento.

E como é a integração dos MFCs com outras especialidades?
Existe um grau de entendimento com outras especialidades. Claro, não podemos dizer que este é o nível ideal, mas, nem se compara à realidade de 20, 15 e até 10 anos atrás. Evoluiu muito e o crédito precisa ser dado ao trabalho realizado pela APMCG. Desde a sua fundação, a Associação atua no sentido de favorecer cada vez mais o reconhecimento da especialidade. Isso trouxe um impacto muito grande não apenas para a população que se utiliza destes serviços de saúde, mas também nos outros profissionais de saúde. Não falamos apenas dos especialistas médicos, mas, novamente, houve um reconhecimento de enfermeiros e outros especialistas hospitalares. Melhorou muito a imagem da MFC junto às demais especialidades e favoreceu a integração dos cuidados médicos e até mesmo a coordenação e articulação de cuidados entre a atenção primária e a atenção hospitalar.

De alguma forma isso contribuiu para o aumento do interesse pela medicina de família?
Sem dúvida. Claro que este é um trabalho que nós também estamos desenvolvendo, de aumentar a atração de jovens estudantes de Medicina e recém-formados para que escolham a MFC com convicção e motivação. O que não é fácil. Os internatos médicos e de residência médica em Portugal, entre aspas “obrigam” ao jovem escolher uma especialidade, um programa de residência. Se ele não se decidir, vai ficar desempregado, desvinculado do sistema. Ou seja, não trabalha. Em Portugal, é virtualmente impossível ter alguém trabalhando no sistema de saúde que não esteja em um programa de residência ou que já não o tenha finalizado.

Qual a importância do intercâmbio científico e cultural entre Brasil e Portugal para a Medicina de Família e Comunidade?
Sempre tivemos algo que nos une. A língua portuguesa. Somente esse aspecto já é maravilhoso. Costumo citar o poeta Fernando Pessoa, que dizia que a pátria dele era a língua portuguesa. E não há dúvida. Eu me sinto em casa no Brasil. E somos realmente pessoas que nos damos muito bem, sem qualquer tipo de preconceito. Então, é como nós dizemos em Portugal, ‘sem pedras no sapato’. Acho que temos uma relação muito boa, franca, aberta, totalmente honesta. E isso é realmente muito bom de sentir, somos realmente países irmãos.

E de que forma isso se reflete em ações práticas?
Nos cenários macro e político existem movimentos e protocolos coletivos de colaboração entre os dois países. Na área de MFC, desde a fundação da APMCG e da retomada da SBMFC, as direções das organizações vêm buscando uma aproximação. Isso resultou em uma relação fraterna que perdura. Fora isso, o atual presidente da SBMFC, Gustavo Gusso, também é meu amigo desde que começamos a atuar na Medicina de Família e Comunidade. Portanto, essa aproximação das entidades trouxe algumas consequências práticas. Uma delas é o próprio intercâmbio entre colegas brasileiros e portugueses. Médicos de Família e Comunidade residentes, jovens médicos, que têm a oportunidade de ter uma experiência profissional fora do país. Com isso, a expectativa é coincidir esse período de intercâmbio no período antes ou depois dos congressos de medicina de família e comunidade em ambos os países, para que os médicos possam compartilhar suas experiências nesses encontros.


Desde quando existe esse intercâmbio?
Sempre houve um intercâmbio informal. Médicos portugueses que colaboravam com a Associação e recebiam jovens médicos brasileiros e vice-versa. Isso porque médicos que gostariam de fazer um estágio em Portugal contatavam diretamente a APMCG, por ser uma das formas mais práticas para iniciar esse processo. Eventualmente, a Associação reconhecia em determinada região o médico preceptor que poderia receber este profissional. Nos últimos anos procuramos formalizar isso a partir de um protocolo de interação estabelecido em 2008, no 3º Encontro Luso-Brasileiro. Este programa de intercâmbio conta, inclusive com o apoio dos ministérios da Saúde de ambos os países.

O que engloba esse protocolo de interação?
Temos esse programa formalizado e estabelecido com objetivo de proporcionar aos residentes e jovens médicos de família e comunidade uma experiência profissional que antecede os congressos de medicina de família e comunidade, ou mesmo iniciá-lo após o congresso. Para ser um programa global e mais completo, que envolva não só uma experiência prática nos centros de saúde e unidades de saúde da família, mas também uma experiência de formação educacional, profissional, em ambientes científicos onde esses profissionais vão poder apresentar a sua experiência a partir de apresentações orais e pôsteres.

Qual foi a sua impressão sobre o 11º CBMFC?
Foi um congresso muito importante. Com uma dimensão que nos deixou bastante impressionados. Causou uma sensação muito positiva. E mais ainda porque o congresso foi também a oportunidade de celebrar o 4º Encontro Luso-Brasileiro de Medicina Geral Familiar e Comunitária. Desde 2008 que não fazíamos uma edição conjunta. Naquele ano, o encontro aconteceu em Portugal e este ano era a vez de o Brasil ser o País irmão a realizar este evento.

Em sua opinião, qual é a importância de um plano de comunicação para ampliar este reconhecimento da especialidade e qual é o papel da mídia nesse trabalho?
Este é um trabalho muito importante. Em Portugal, a APMCG contou com um trabalho de assessoria de comunicação. A população em geral, assim como a própria categoria médica, está sujeita diariamente às mídias. E se, de alguma forma, a medicina de família não fizer parte da agenda dessas mídias, certamente não se poderá trabalhar a imagem dessa especialidade da melhor forma. Eu sei que a SBMFC tem feito um trabalho muito importante de comunicação. Mas, mesmo assim, é preciso trabalhar cada vez mais nesta área. Acho que é imprescindível fazer com que cada vez mais as pessoas tenham conhecimento sobre a importância do médico de família. Sistemas de saúde com mais médicos de família e que baseiam seu sistema de saúde na atenção primária têm melhores resultados de saúde, menor taxa de mortalidade, menor taxa de morbilidade, melhores resultados em doenças crônicas, em doenças não-transmissíveis.

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