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Ttulo:  margem... ou uma simples melancolia...
Autor: Jorge Miguel Marinho

À margem... ou uma simples melancolia... Depois de buscar uma palavra impossível que não veio, antes de adiar mais uma vez a leitura dos jornais da semana, sem tentar novamente tomar o café que ficou definitivamente esquecido na xícara branca e fria, o escritor decide tomar o banho de ontem. Segue meio trôpego em busca do banheiro só para se arriscar a uma rotina, apenas para tocar uma possível existência concreta sempre por um triz. Fica pronto, parado e inútil com uma toalha nas mãos olhando para a porta do boxe, olhando sem futuro. Enfim, o escritor tira a roupa como se estivesse se despindo de uma segunda pele, Agora o escritor está nu. Ele sou eu, por isso abro o chuveiro. Talvez os fios grossos de água me intumesçam até as vísceras, me inundem e, quem sabe, me encharquem esse corpo que, a cada dia, mais parece não me pertencer. A água me bate na cara e eu mal me sinto dentro de mim. Qualquer parte da minha anatomia ficou fora do boxe e involuntariamente abro a porta procurando ávido uma terceira perna, um braço sobressalente, várias outras mãos. É com lucidez e uma porção de cólera - que para mim é uma raiva maior - que eu me ensabôo como se uma outra pessoa me lavasse, como se outro alguém fizesse em mim uma higiene necessária e urgente. Enquanto a água escorre sem fazer escoar o meu desconforto, eu penso há quanto tempo eu não me distraio de mim. A distração é ficar dentro do corpo, é estar dentro da vida, é a única forma de ser - penso completamente necessitado e possuído por essa filosofia de botequim. "Se eu pudesse me desprender da margem de onde eu me contemplo em total estado de exílio. Que bom se eu escorresse pelo ralo e me tornasse uma matéria liqüefeita como água diluída dentro da água. Que bom se eu esquecesse e nunca mais existisse à margem..., tanta gente vive assim." Escolho uma roupa que me parece justa e bonita, insisto em me vestir combinado só para continuar vivendo por força de uma tarefa. É de tarde, é um pouco mais que de tarde - sinto uma melancolia quase feliz como se me largasse numa cama alva e definitiva, como se uma morte inevitável estivesse na outra margem à minha espera. Morrer me parece calmo como se entregar a um além abraçado por nuvens de algodão. Lá em cima. Estou só, Meu apartamento também parece que nunca habitou alguém. Nem o próprio escritor que sou eu. Vou até a janela, olho as pessoas dentro do dia, à distância, todos longe, bem longe da rua tão distraída e por isso mesmo pulsante. Tento obstinadamente olhar para a vida espargindo ou extirpando de mim os possíveis mistérios que hoje me fazem tanto mal. É nesse exato momento que o escritor que sou eu desvela, mais uma vez e como sempre, isto há anos - que deseja ser feliz. "Eu quero ser feliz" - rumino tão forte que as palavras quase gritam da minha boca que também não parece ser parte minha. Tudo é tão estranho, mais estranho ainda é que nunca me sinto escritor e de fato sou. Daí a eterna ironia ou timidez de falar dos meus livros desdenhando a caligrafia, tripudiando os temas por demais subjetivos, de todo intimistas, ensimesmados nas páginas brancas com palavras que apenas querem clamar que eu existo e preciso de outros olhos para acreditar em mim. Nem sempre sou notável, nem sempre sou reconhecido, nem sempre eu sou eu. É exatamente por esse motivo que uso óculos escuros mesmo depois da cirurgia que clareou melhor os dias para mim. Súbito o escritor sai do seu apartamento e volta inseguro e assustado para investigar e ter a certeza de que trancou a porta. Trancou como sempre tranca mas não acredita no que faz. A porta está seguramente trancada e o escritor, mesmo assim, não confia no óbvio das suas mãos. Volta e constata pela terceira vez. Finalmente o escritor que sou eu entra no elevador e aperta o térreo como se apagasse todas as cenas anteriores. Caminho pela Teodoro Sampaio em direção ao Centro, Caminho rápido como se cada passo também extirpasse uma tristeza insistente. Uma tristeza que preexiste sempre depois de um recesso que suponho ser a minha história melhor. Caminho para o Centro rapidamente, caminho avidamente para o Centro da cidade fugindo do centro de mim. Estou há um ano trancafiado no que pode ser algo lá dentro, estou cansado dessa moradia interna, vou... Viro à direita entrando na Dr. Arnaldo, vou, vou decidido. Vou a caminho do Centro só olhando, olhando agora o carro que brecou subitamente e não bateu no outro. A velha empertigada e com brumas nos olhos também olhou na expectativa de um choque que não houve. Ficou decepcionada, um tanto rancorosa com o dia monótono e se foi. Descendo a Consolação, o escritor que sou eu pára como se brecasse uma locomotiva com um único gesto que até então guardava nas mãos e procura a carteira com a sua identidade no bolso. Ela está lá - aperta o couro preto suando frio, lívido e incapaz. Breve paz, ele se achou. Diz alto, a ponto de assustar uma mulher apressada e anônima, "Graças a Deus". Permaneço imóvel por alguns instantes, repito cada vez mais forte esta minha exclamação divina como se praticasse um cacoete existencial. Há tempos que eu me perco nos objetos e, quando toco e encontro este meu cotidiano tão perecível, digo "Graças a Deus". "Por que é tão difícil para mim me imaginar distraído num futuro ainda que remoto, existir esquecido, imerso no que possa ser o ritmo da vida, deixar de contemplar a existência e morar dentro de mim?" Não sei, por isso desisto de mais um mistério e vou. Vou... Por um longo tempo caminho de cabeça baixa, quase que em ritmo de marcha percorrendo as calçadas tão iguais, atravessando esquinas sem prestar atenção nos carros, deixando o trânsito de pessoas passar por mim como um bando de silhuetas sombrias e sem perfil. Vou agora mais lento porém mais decidido. Caminho nostálgico de uma paisagem que nunca vivi. Vejo um carro atropelar uma criança como um flashe. Olho detidamente e apenas encontro um filete de sangue nas minhas calças - não há nenhum corpo atropelado no fim da Consolação esquina com a Rego Freitas, os carros avançam vagarosamente. A tarde um pouco mais que de tarde prossegue impassível e a realidade se oferece como uma longa procissão sem máculas, sempre igual. "Mas como se explica o filete de sangue nas minhas calças? Quem viu o acidente, eu ou o escritor que sou eu?" Não sei..., só sei que sempre vejo corpos agredidos no trânsito ou nas páginas de jornais com suas manchetes tão vigorosas que me fazem desviar os olhos para os cadernos culturais. Mas os acidentes sempre acontecem. Numa certa ocasião cheguei a socorrer uma senhora gorda que mal lembrava o seu próprio nome. Só hoje, nessa tarde um pouco mais que de tarde, que o corpo se diluiu. De um instante para o outro, tudo sempre de supetão, imagino que passo ou passei por alguns sebos e livrarias fazendo questão de não saber se algum dos meus livros estava lá. Divago, vou do presente para o passado, o futuro não há. Vou... Mas eis que de repente já estou no Largo do Arouche e pego uma transversal qualquer com o passo firme como alguém que se aproxima do seu destino. Chego na Praça da República e sento no primeiro banco de jardim exausto. Desfruto outra breve paz por força da lassidão. Penso mais uma vez na outra margem. A que vem depois da morte e já é imperativa enquanto se morre. Como eu agora. Bem em frente de mim vejo um homem pardo que vende água de coco. "Como ele sabe escavar um furo no topo da fruta com a habilidade do trabalho das mãos." Ele é a própria continuidade do coco, ele é o coco sem a menor perspectiva de um além. Ele é aqui bem no Centro. "Que vontade de perguntar a este operário, que vive dentro da sua obra, o que é a vida sempre indo para um possível nunca mais". Não pergunto, recuo para dentro de mim por mais dois palmos. Tenho vergonha dessa inútil metafísica diante de tanto labor. O homem trabalha, eu apenas contemplo. Com mágoa, sim. É mágoa mesmo e talvez um pouco de rancor do homem, do coco e mais o rosto vitorioso de quem permuta a existência por dois reais contidos em duas moedas. Acontece que alguém sedento de tempo, veloz como uma lufada de vento que não há, acaba de comprar um coco e há mais mistério nesse contrato do que toda a transcendência que eu engulho nesse exato instante como quem devolve a polpa imaterial do seu próprio umbigo. Sem olhar diretamente, ouço a gritaria das crianças que pedem outras moedas no sinal vermelho sem a presença dos pais. Eles não precisam de pais, os pais atrapalham. Por fim, depois de várias tentativas, a moça de costas conseguiu parar um táxi e se tornou invisível se sentando na parte traseira do carro, cobrindo os joelhos com a saia erguida e infiel. A saia mostrou uma parte dela que eu quase não vi. Estou na Praça da República sentado num banco e só, nem as pernas da moça me atraem, nem o seu gesto provavelmente excitante me tira de mim. Numa fração de segundo vislumbro um ônibus aborratado e farto de passageiros sentados e em pé. Esqueço, faço uma panorâmica da Praça quase de toda involuntária em busca de um espelho melhor. Estou vulnerável, ainda inútil e assustado diante de um mal abstrato que me faz pensar que escrever o mundo é um estado doentio. Afasto essa idéia porém não me movo do banco, não alcanço subir um único degrau invisível e ao mesmo tempo tão real.. "E eu que num passado não tão remoto imaginava estar velando o mundo e repousava nas palavras com essa impressão." Era tudo tão volátil, concluo esfregando as mãos. Igual a uma virada de página instantânea, sempre de supetão algo se realiza: em frente do Colégio Caetano de Campos um fanático de terno e gravata, respingando uma bíblia com gotas de suor e saliva de tanta euforia e calor, grita versículos e improvisos doutrinários a ponto de ir perdendo a voz. Por fim se cala balbuciando outros dogmas incompreensíveis numa crepitante língua de Babel. Porém não pára de andar de um lado para o outro como se, agônico, tivesse como missão continuar bradando vitupérios até abrir a porta de um céu impossível ou mesmo corresse atrás da sua própria sombra, voraz, sedento, avido de uma certeza que quase todas os passantes fazem questão de não ouvir ou desprezar. Quem sabe nem percebam confinados que estão na sua sobrevida interior. O escritor procura encontrar um sentido na cena automática e autoritariamente servil. Ele disseca a estatura do religioso habituado como é a seguir as regras do seu ofício. Quanto a mim, deixo extravazar um ódio que me faz menos contemplativo e me permite liberar um lapso de humanidade emergindo momentaneamente do fundo do meu corpo que por um instante parece ser meu, como se eu acordasse uma raiz decisiva de dentro de mim. Agora o escritor mal parece ser eu e no entanto é. O escritor, por simples falta de atitude, se vira para o outro lado da praça, fecha os olhos e logo volta a abri-los. Suponho que seja por intuição, sua parte melhor. É então que ele avista um pássaro que titubeia no vôo como um ser que se afoga por excesso de ar, O pássaro volteia por um tempo ainda sem norte e vai ralentando as asas quase imóveis, provavelmente cansadas de uma viagem ou talvez de uma origem intempestiva. O pássaro aterrissa num galho seco de uma árvore próxima que se queda fundo na alma do escritor. É um pássaro molhado, agora ele pode ver. "De onde vem esta ave tão melancólica, triste e exaurida que mesmo imóvel parece ainda ser a memória de um vôo?" O escritor que sou eu imagina uma longa travessia, os pontos mais distantes do universo, um pouso final. Como desde sempre e no ápice de uma situação, involuntariamente espano os ombros me sentindo molhado nas costas e úmido na sola dos pés. É apenas e sobretudo um pássaro, um pássaro que está só. Me aproximo dele, ele não se assusta nem se move como se estivesse encurralado num céu, livre e impassível. Pego o pássaro nas mãos como se encontrasse a terceira perna que buscava no boxe tomando banho antes de sair. Sinto agora uma paz miserável enquanto seco suas penas com lenços de papel alvíssimo. Realmente é uma paz miserável porque vem do conforto de tocar um sobrevivente mais infeliz e sem propósito do que eu. "Como a dor nos amesquinha, como a tragédia do outro nos dá um destino, como a natureza humana é um erro de Deus." Solto o pássaro na grama acolhedora e ele não se move, está convicto de que viver dá muito trabalho. Ele bica uma folha só para ter a certeza de que ainda existe, inicia uma caminhada trôpega e vagarosa em direção a um horizonte brumoso que é paisagem onde eu não quero pisar. Esqueço o pássaro, não olho as crianças e os desvalidos, não quero me lembrar da moça de costas nem do fanático e muito menos do operário dentro da sua própria obra. Volto ao banco de jardim e acendo um cigarro inexorável, a fumaça densa de nicotina sempre me faz bem. Preciso parar de fumar, o médico me avisou... Mas não para agora, não agora porque estou melancólico e sem história como um pássaro molhado que apenas preenche os vazios da vida com uma ficção plagiada de gente conhecida ou não..., envergonhado e acendendo outro cigarro, me sentindo profundamente constrangido e um tanto quanto falso por ser um escritor. Ser um escritor tem sido um equívoco como tudo o mais, agora eu sei. Parece que as palavras me enxotam da realidade e eu não quero ser este escritor que sou eu. Súbito cansaço nas articulações do corpo que ainda não parece ser meu. Monotonia, paralisia, tepidez embora tudo me pareça pela primeira vez. Não sei por que sinto que os bêbados, os mendigos e os confinados nessa tarde triste e ainda um pouco mais que de tarde buscam reconhecer os culpados do seu aleijão. É de tarde, é tão tarde e eu não consigo ser parte dessa paisagem por demais melancólica que por algum motivo eu sinto na epiderme ser parte de mim. Estou à margem, vivo à margem, a margem sou eu. "Será que essa simples melancolia não esteve presente em tudo o que eu julguei ser eu? No amor, na abstinência, na dor circunstancial que certamente se fez acontecer. Será, será que eu me inventei?" Não olho as horas, basta saber que é o final da tarde de um dia que insiste em se prolongar. De qualquer modo, o tempo passou, o tempo sempre passa e eu acendo um cigarro no outro e vou com a intenção de um nunca mais. Caminhando numa outra direção, talvez seguindo para a periferia, lembro que alguém já disse, provavelmente um escritor que não tem um nome aderente - que escrever é um crime, que a ousadia de uma obra de arte, de um livro, é o mais pérfido dos sacrilégios, que a letra imaginária da criação, esta caligrafia quase sempre tão longe do que possa ser uma vida de fato, é o maior dos pecados. Acabo de viver bem agora uma culpa imperdoável e espanei mais uma vez os ombros como também sempre faço quando decifro em mim uma covardia. Não sinto fome, não sinto sede, nem a falta de cumplicidade de um possível alguém. É então que me pergunto qual a matéria do escritor que sou eu mesmo, me vejo banido da tarde muito mais que de tarde e vou. Vou muito mais rápido e sôfrego, igual a um genocida que foge da arma que lhe serviu durante décadas de existência no centro de um vazio. A minha história, a minha tarde, o meu agora aconteceram por conta de uma ausência, ausência assimilada talvez. Ausência, minha enseada. Ausência, meu destino. Ou não... De repente, como se a Praça se diluísse com a proximidade da noite, não tenho mais tanta pressa, tudo é tão provisório, apenas vou... Vou como uma ave imóvel dentro do seu próprio vôo.

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