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Ttulo: Quem sou eu dentro de mim?: confisses de um depressivo otimista
Autor: Jorge Miguel Marinho

Quem sou eu dentro de mim?: confissões de um depressivo otimista Jorge Miguel Marinho Para o amigo e doutor Moacyr Bustamante que deve pensar humanamente como Clarice Lispector quando ela diz que "dar a mão a alguém é tudo o que se espera da alegria". Agradeço aos amigos e doutores Antonio Austregésilo Neto e Vicente Augusto de Carvalho que, com generosidade e concordando ou não, fizeram as circuntâncias dessas minhas confissões. É de tarde, provavelmente cinco horas ou mais.

Sinto perto da proximidade da noite uma espécie de melancolia feliz. Tenho doze anos, estou na sala da minha casa deitado de costas e esparramado no chão. Olho na parede uma enorme imagem de Jesus Cristo que parece prestar atenção em todos os móveis e silêncios da sala e também olhar para mim. Me pergunto quem é ele, o que há dentro do rosto dele, o que faz com que ele seja ele e não eu. Não há misticismo nem embate entre mim e a imagem, muito menos arrogância, altivez, prepotência ou heroísmo da minha parte - nem mesmo sentimento de rejeição. Excesso de imáginário, talvez. O que acontece então? Apenas curiosidade de um adolescente que se interroga e busca entender o que acontece para uma pessoa ser ela mesma e não outra, curiosidade esta que por acaso se fixa nesta tarde numa imagem de Jesus.

Podia ser no meu pai, na minha mãe, no meu irmão ou em qualquer rosto que surgisse de repente na sala desarrumando a minha agradável solidão. Agradável mesmo: era segunda-feira, dia em que minha mãe ia fiel e invariavelmente à Igreja das Almas dos Aflitos no bairro da Liberdade e eu podia ficar e viver do jeito que eu quisesse, muito embora, nos outros dias, a presença dela nunca me aprisionasse por motivo algum e muito menos impedisse que eu fosse eu. Porém era bom demais ficar só e somente ser. Por algum tempo insisto ainda na pergunta que busca desvendar o que aconteceu para que Jesus seja Jesus mesmo e não outra pessoa qualquer. Em seguida fecho os olhos e penso no escuro do meu imaginário quem sou eu e o que faz com que eu seja o Jorge e não outro alguém. Na verdade eu procurava identificar um ponto substancial como um caule que busca sentir que os galhos e as folhas são sua continuidade ou mais precisamente tocar algo palpável que existisse dentro de mim e fizesse eu ser eu. Mergulho fundo, apalpo em pensamento todas as partes do meu corpo, procuro obsessivamente uma "coisa qualquer" no peito que me dê a certeza de um eu tocável, algo que seja o ponto central do Jorginho e eu me sinta inteiro dentro e fora de mim. Me busco mais fundo ainda, não encontro "nada" e sou visceral e abruptamente interrompido na minha busca por um susto assombroso de "coisa nenhuma" que me faz levantar e correr aos gritos querendo desesperadamente fugir e me livrar do pânico que toma conta de mim. Grito "mãe", corro em volta da casa, acho que chego a transpirar o susto pela cabeça, pelas costas, pelas pernas, por toda a minha estatura. Por fim, de repente me acalmo também. Esse inferno dentro de mim aconteceu durante poucos instantes, não mais que uns dois ou três minutos, mas voltaria de tempos em tempos, em períodos cada vez mais longos e eternos, de início em torno de sessenta dias de crise aguda, depois mais dias e semanas e meses, parecendo sempre uma presença que se aloja silenciosa e sorrateiramente em todos os poros da minha existência - a minha implacável companheira que se chama depressão. Mas vamos por partes buscando desvelar esse inferno tão abstrato e me fazer entender ao menos como tentativa de quem confessa - sem saber até hoje - o que havia, o que houve e o que há dentro de um depressivo como eu que vive a experiência aguda e sem limites da dor sentindo ser tomado por inteiro, a ponto de não sentir mais o sofrimento por se tornar de corpo e alma a própria dor. Meu nome é Jorge Miguel Marinho, tenho cinqüenta e sete anos, sou professor de Literatura Brasileira, escritor e roteirista, casado com a mesma mulher há vinte e sete anos, tenho muitos amigos e dois filhos solidários e generosos, adoro a natureza humana, como arroz com feijão e batata frita como uma das delícias da vida, gosto de teatro, de cinema e sobretudo de livros, e vivo no limite de um algo a mais: eu sofro de depressão. Quando confesso essa minha "patologia", não sei na amplitude o que tal atributo nega ou afirma da minha personalidade, mas tenho a certeza de que, de todos os meus males, este é o meu mal pior. Se você, leitor, avaliar comigo, há de considerar que é uma história humanamente boa e tocável: eu vivo, tenho uma narrativa e estou dentro da existência com os sentidos bem aguçados para o que vive dentro e fora de mim. Entretanto, nessa agradável travessia, tenho também um algo a mais que, em muito, deve determinar o que eu sou ou julgo ser. Isto porque a ciência psiquiátrica comprova que eu sou um depressivo desde os meus dez anos de idade ou há mais tempo, com crises esporádicas e muito agudas entremeadas por longos períodos de recesso onde eu me agarro à felicidade mais prazerosa de simplesmente existir. Talvez se a ciência não desse uma ênfase tão pouco específica à depressão e ao mesmo tempo não vagasse, com toques de relevo, por abstrações de estados físicos e de alma como sintomas singulares – para mim, hoje, quase de todo recorrentes de uma química absolutamente inata à natureza humana –, eu diria que sofro de uma doença e sou patologicamente um homem muito mais depressivo do que a média de pessoas que vivem a experiência imperdível de viver. Em síntese, viver é uma aventura apaixonantemente única que carrega no seu próprio modo de ser os malefícios e – não se assuste, leitor depressivo ou não – os próprios benefícios de uma depressão jamais desejável, por condicionantes físicos, psicológicos, sociais, culturais, existenciais e até metafísicos. Com aquele meu episódio da adolescência e essas palavras iniciais, nesse tímido depoimento sem a menor pretensão científica e, não por acaso, absolutamente subjetivo, quero apenas me revelar como uma pessoa metabólica e psicologicamente depressiva que, mesmo nos momentos mais carregados de pânico e desconforto existencial em algumas fases-limite da doença, por uma questão de temperamento, chegou a tocar a face implacável da morte, tendo como feliz contrapartida um impulso vital de apostar com tudo que, apesar da vivência terrivelmente insuportável da depressão, vale a pena continuar a existir. Eu tenho comigo que somente quem viveu a experiência da depressão ou, melhor dizendo, quem sofre de depressão é capaz de compreendê-la dentro do próprio universo de estado doentio.

A depressão que porventura alguém viva é única, é apenas sua, no limite é realidade que só pertence a ele e, portanto, depende circunstancial e fundamentalmente de como se pode torná-la uma cúmplice na travessia da vida ou um algoz mortal no nosso modo de existir ou desistir de viver. Nesse sentido e com raríssimas exceções, considero que o psiquiatra - ou o psicólogo - ou o psicanalista de um modo geral, com seu estigma de especialista, parta de modelos e comportamentos clássicos da doença que não fogem de um padrão patológico, nem sempre levando em conta sutilezas, traços e manifestações individuais do depressivo. É de fundamental importância, imprescindível mesmo, que o profissional chegue a medicar o paciente apalpando as pistas, recolhendo as confissões caóticas e atípicas, escutando os silêncios, a descrença e até a própria recusa de tratamento, acrescentando ainda o desconhecimento ou a inconsciência da doença – por parte do depressivo – que me parece, de todos os entraves, o problema maior. A grosso modo a depressão me parece um mal abstrato ou "qualquer coisa" preexistente que nos momentos de crise faz com que o doente busque na sua realidade mais concreta um motivo ou uma razão para o seu estado doentio. Acontece que, quanto mais o depressivo busca a mola propulsora do seu "mal-estar", menos encontra sentido para a sua vivência de pavor. Isto porque a depressão, enquanto dor abstrata durante a fase mais aguda, age como uma "fera silenciosa" em atitude de "devoração": momentaneamente o depressivo - especialmente os mais combativos - encontra uma razão tocável, descobre um caminho possível, vislumbra num instante telegráfico uma relação de causa e efeito. Entretanto a doença vai perseguindo e devorando as saídas num movimento que se multiplica até chegar ao pânico geral. Pelo menos é assim que acontece comigo. Por razões óbvias resultantes do contexto social em que nasci, família simples e economicamente quase miserável, esse total desconhecimento da doença - aliado à abstração da dor - foi por muito tempo o norte da minha depressão. Me acompanhe e veja o porquê. Que eu me lembre, a primeira vez em que senti, quando criança, a manifestação depressiva – insisto: sem conviver na época com alguém que tivesse a menor noção da doença – foi no final da década de cinqüenta, assistindo na televisão a um programa chamado Histórias Maravilhosas Bendix, situação esta em que inesperadamente fui surpreendido por um susto ancestral por alguns segundos, sem o menor motivo identificável na hora, como se eu tivesse me distraído de mim ou do que eu pudesse ser e o que significava o sentido da vida, isto é: por estranhar por qualquer razão desconhecida a experiência de viver, não soubesse quem eu era e o que eu fazia em frente da TV. Esse susto telegráfico e momentâneo que me fez tremer dos fios dos cabelos à sola dos pés, como disse, não durou mais que segundos, mas – hoje eu sei – sinalizava a promessa de um sofrimento único e inconfundível que eu com o tempo viria a viver. Creio que eu me distraí de mim e da existência factual mergulhado naquelas histórias maravilhosas de fadas, bruxas e heróis que podiam ser outra "coisa" qualquer e fui exilado instantaneamente da realidade concreta sem saber quem eu era e o que existia dentro de mim que me fazia ser entre tantas pessoas "um eu" vendo televisão. Enfim, foi como se eu perdesse a familiaridade com as coisas mais prosaicas e comuns que faziam parte do meu cotidiano como comer um doce, jogar pingue-pongue ou roubar frutas do terreno do vizinho – eu me assustei com o susto de existir e, por um breve momento, escorreguei da existência de fato e fui jogado num espaço onde eu me estranhava e não me reconhecia.

Esse susto provavelmente já hibernava dentro de mim e acordou naquele exato momento como podia se revelar em outro momento qualquer vendo televisão ou divagando pelo céu. É claro que só hoje eu tenho conta dessas impressões pensadas e diagnosticadas por mim durante as crises depressivas. No recesso dessa doença, voraz e silenciosa, eu chego a acreditar e mesmo a viver longos períodos de uma existência humanamente feliz. Mas ela sempre voltou e foi possível fazer paralelos, pensar, repensar e tornar a pensar nos períodos da doença, nos sintomas idênticos e no mesmo tipo de pânico nos períodos de crise, nos aspectos de semelhança e dessemelhança desde essa primeira manifestação instantânea da doença até o tormento maior sofrido por um longo período em 2004. Respeitadas as variáveis e mudanças que fazem parte de uma experiência humana se expandindo, avançando, somando tempo, experiência, impulsos, alegrias e tristezas, desafios e frustrações, afetos e desafetos, paixões e apatias, projetos e rotinas, promessas e desesperanças, euforias e tédios, amores e desamores, certezas e incertezas – aos poucos eu fui identificando de forma mais ou menos intensa o rosto voraz, aparentemente impassível e obstinadamente corrosivo dos estados da depressão, entre eles, a sensação de estar no centro da vida hermeticamente encerrado numa redoma ou numa bolha de vidro transparente, contemplativo e ensimesmado, sem a menor brecha para me agarrar ao circuito de viver. Quando a crise volta, na maior parte do tempo chego a ficar exaurido de fazer "tudo?" para reencontrar o fluxo da realidade. Isto porque o depressivo, ao menos eu, se sente estranho e estranha até o limite do possível a experiência agônica de existir. Medo de dormir e de não dormir, de ir ao banheiro e não conseguir urinar, de esquecer o nome das pessoas quase íntimas, de mover o corpo para fazer qualquer coisa e instantaneamente não lembrar mais o que ia fazer, de ouvir o telefone ou a campainha e ficar em pânico sem saber o porquê, de olhar as pessoas amigas ou desconhecidas e estranhar a anatomia de corpos assustadores com braços e pernas soltos, um tórax despropositado e uma cabeça sem o menor senso de estética com dois olhos piscando, duas orelhas inúteis e um nariz por cima da boca completando o aleijão. Pelo menos para mim, nas crises depressivas é como se eu estivesse aterrissando num planeta desconhecido habitado por figuras estranhas que, por instantes, me provocam o horror. Nunca perco a consciência, chego a conversar, por vezes, com uma certa naturalidade, sei que estou em frente de alguém como eu, mas por dentro me sinto desnorteado e aos sobressaltos vivendo num estranho país. Alias, nessas ocasiões quase não me olho no espelho para evitar a estranheza do meu rosto e o próprio medo de mim. É isso, é só isso e ao mesmo tempo tantos labirintos a mais. Lembrei agora que em 2001 eu tive um leve AVC e fiquei internado numa UTI durante cinco dias com a suspeita de um possível aneurisma que felizmente não se consumou. De qualquer forma, consciente do meu estado, eu senti a fragilidade da vida e a presença da morte bem próxima de mim. Por alguma razão que desconheço, não me apavorei e estranhamente não cheguei a sofrer um décimo do que sofro quando estou depressivo pelo simples gesto de me erguer da cama e pôr os pés na realidade tão escorregadia e imprevisível do chão. Talvez isso se deva ao fato de que o deprimido vive agudamente a dor atemporal, ele é só presente não havendo o menor espaço para a memória de um antes ou a hipótese de um depois. Vale a pena fazer essas observações ao longo do meu desavisado e subjetivo depoimento para colocar em destaque que viver a depressão é um longo e extenuante aprendizado que, se tiver algum sentido, resulta invariavelmente da história de cada um. Por isso estarei insistentemente reiterando que só aos poucos fui, com a lenta e laboriosa paciência do tempo, percebendo estes estados até chegar hoje a arriscar essas tímidas e óbvias impressões. Naquele dia, em frente da televisão eu tive a sensação de ter escorregado da realidade palpável, cotidiana, familiar, colada à minha pele, e ser enxotado ou posto porta afora da existência que naturalmente eu supunha ser minha, ficando por um instante sem saber quem eu era dentro de mim. Tudo isso por uma distração momentânea, como se eu tivesse me distraído na aventura daquelas narrativas fantásticas e de repente me esquecido de mim. Gritei cortante: "mãe". E ela, acolhedora e maternalmente cúmplice de um espanto que me atacava e ela nunca iria entender, gritou também no ato em tom de quem adestra a surpresa porque a intuição materna pressente que não poucas vezes é perigoso se surpreender: "Estou aqui". Imediatamente eu me alojei em mim e fiquei seguro como quem descobre na presença do outro a certeza de existir. Foi uma fração de segundo e ainda trêmulo eu entrei novamente em mim. Ganhei um abraço apertado e silencioso, tomei água com açúcar, deitei a cabeça no peito da minha mãe como se plantasse os pés num território seguro, sem a menor possibilidade de haver nele um abismo, um buraco ou mesmo uma brecha na superfície compacta e concreta do chão. O coração, a respiração, o fluxo sangüíneo, a temperatura dentro e fora do meu corpo foram retomando o seu ritmo e eu voltei a ver televisão como um náufrago que apenas havia sonhado que aconteciam tempestades impetuosas na geografia do mar. Se antes já havia essa química assustadora minando embrionariamente os meus dez anos de existência meio atípica mas nada de tão anormal, eu até hoje não sou capaz de afirmar com segurança. Só sei que essa minha velha companheira imperiosa, impassível e terrivelmente implacável, começava a fazer as suas primeiras visitações sem tocar uma campainha ou bater palmas no portão. Ela sorrateiramente, sem a menor anunciação, já surgia na sala ou no quarto de dormir... A segunda manifestação depressiva – que eu me lembre – foi naquela tarde melancólica e ao mesmo tempo feliz em que eu me perguntei o que existia dentro de mim e no rosto de Jesus. Mas considero que a primeira vez em que sofri uma depressão de fato não foi por alguns instantes. Ela, sempre silenciosa, retornou e veio para se hospedar, na fase aguda, por mais ou menos sessenta dias dentro de mim. Já deu os seus primeiros sinais imperiosa e senhora de mim com todos aqueles incômodos, angústias e pânicos em tempo contínuo. Depois foi se esvaindo, hibernando em estado de vigília, até aparentemente se apagar com os olhos sempre abertos. Isto aconteceu quando eu completei os meus dezoito anos, exatamente um ano depois da morte da minha mãe.

Muitos associaram a crise ao acontecimento, porém eu não conseguia identificar o meu inferno, nunca antes vivido daquele jeito e com tal intensidade, com a possível travessia da minha "queridíssima mãe" da nossa modesta casa – com os acertos e os desacertos da Terra – para os paraísos do Céu. Dispensável dizer que eu senti muito a falta dela – tinha com ela uma espécie de cumplicidade que não era apenas nutrida de segurança e aconchego entre mãe e filho. Não..., havia entre nós uma espécie de ressonância afetiva de um para o outro e, mais do que parceiros da mesma família, travávamos um código cifrado, às vezes quase sem palavras, diálogo cara-a-cara que nos fazia amigos com todas as confissões, as honrarias, as paixões e até os desatinos – enfim pessoas iguais. Ela me contava a sua história desde menina ousada, violada e até de certa forma violentada no Nordeste das Alagoas e, não de vez em quando, quase dividia comigo os seus segredos mais íntimos, porções de desejo de mulher mais ou menos mal casada que cortava e recortava a rotina com pequenas e grandes ousadias que, aos olhos dos outros, eram até indecências de mãe. Quanto a mim, eu partilhava a sua verdade com curiosidade, paciência, tolerância desmedida, espontânea compreensão e muito provavelmente – talvez, quem sabe – com um toque de cumplicidade meio mordaz. Quero apenas dizer que a minha mãe, a dona Ada, era um ser amoroso que jamais perdia de vista a existência concreta dos filhos com os pés bem plantados na Terra e os olhos soltos, suspensos e até desvairados nas seduções meio brumosas do ar.

Mas não eram só sonhos que a dona Ada tecia com olhos de menina traquinas nas noites de luar. Mesmo sendo o meu pai um sírio de uma generosidade rigorosa, autoritário desde as primeiras luzes da manhã até a hora de dormir, por vezes violento com tanto sangue ou temperamento libanês – minha mãe chegou a escavar uma ou outra brecha nas paredes compactas da nossa moradia linear e amou clandestinamente dois ou três homens aventureiros pelo simples prazer de se deixar amar por amar. Eu sabia desde criança das suas ousadias, parecia entender as suas aventuras afetivas e talvez o único mal que minha mãe tenha posto no meu peito foi me fazer "entender?" as suas até ingênuas artimanhas amorosas sem que, de verdade mesmo, eu tivesse cabeça para abraçar humanamente o que não cabia dentro de mim. E eu ia entendendo sem entender – afinal ela era o meu porto mais seguro e nós, os filhos, éramos prioridade absoluta nos seus caminhos e descaminhos do amor.

Retomando o nosso tema depressivo, por tal cumplicidade entre mim e minha mãe, era natural que os outros identificassem pontos de ligação entre a ausência da dona Ada e a minha depressão. Minha mãe não era casada com meu pai que havia se separado da primeira mulher com quatro filhos para viver com ela motivado por uma forte e possessiva paixão. Dessa relação tiveram dois filhos: eu e o meu irmão Amaro. A situação de ser mãe solteira só fez aguçar a sua insegurança e o seu lado ladino, sentimentos tão naturais nas pessoas que se vêem à margem dos papéis legitimados pelo poder social, principalmente naquela época. Até os quinze anos eu nunca soube do caso, mas guardava na memória uma frase que ela me dizia algumas vezes com insistência: "Se eu morrer de uma hora para outra, tudo que tem nessa casa é de vocês dois". Sem entender direito essas palavras, a nossa pulsação sangüínea parece ter criado entre nós uma cumplicidade maior. Além de tudo, eu ainda era um garoto ensimesmado, desconfortável no próprio corpo desajeitadamente crescido, tão tímido que freqüentemente chegava a subir na laje de casa quando percebia que alguém nos vinha visitar. Nesse contexto afetivo ainda tão escorregadio, a minha mãe, na cabeça das pessoas, não podia me faltar. Entretanto eu não conseguia unir de forma tão concreta a morte da dona Ada e a minha depressão que me vinha de todos os lugares e abstratamente de lugar nenhum. No meu universo de adolescente pleno de expectativas, naquela ocasião já meio satisfeito de bons amigos e adoráveis namoradas, vivendo o prazer dos primeiros porres de martini acompanhado de vinho tinto da pior qualidade, eu já podia tocar um pouco a minha história e naturalmente aceitava que as mães também são capazes de morrer. De qualquer forma foram sessenta dias de sofrimento contínuo, eficaz e sedento de mim. Não comia, dormia no máximo três horas por noite, acordava pronto para me exaurir milimetricamente em cada segundo da minha companheira insuportável, a perseverante depressão. O pavor de tudo reinava majestosamente e, diante do meu tormento tão extenuante, me levaram meio desconfiados até um médico e este, talvez não tão psicólogo porém muito carregado de poesia, diagnosticou o meu mal depressivo como "estranheza do eu". Fui medicado com calmantes enormes introduzidos numa veia ou no músculo de um braço através de lentas injeções. Busquei uma força impossível para tomar sopas suculentas que me aconselhavam ou me obrigavam a ingerir porque os alimentos sólidos me faziam engulhar, e muitos sussurravam e até me davam pistas monossilábicas que meu mal era falta de mulher. Fiz tudo o que era possível fazer – até cheguei a visitar uma "zona" na rua dos Gusmões, entediado e covarde por dentro, mas querendo muito pulverizar os meus pânicos com uma pretensa vontade de mulher. Tentando desentranhar uma libido recolhida, caminhei inseguro por aquelas vielas da Boca do Lixo, até que uma mulher parda, já meio destruída pelo ofício, me deu o braço e me conduziu por um corredor que me fez sentir um mofo vindo da alma. Paguei a parte do gigolô e entrei com ela num quarto penumbroso que também me provocava um mal ainda maior. Lembro que ela sorria fingida desejando criar um clima natural e, meio constrangida, mostrava a ausência de dois dentes na arcada superior. Eu queria apenas me deitar com ela e provar para mim que era um homem para descartar um remédio a menos no meu mundo de pavor. Lembro também que ela, provavelmente percebendo o suor, o medo e o meu tremor, me confessou que fazia tudo, menos tirar o sutiã porque tinha "ciúmes" daqueles seios já flácidos e parecendo bem apertados para entrar no coração. Para dar uma de homem mas também me sentindo humilhado como uma presa fácil de se usar, disse que "não" com uma resposta estupidamente no ponto: "Não! Eu estou pagando". Ela tirou o sutiã, eu fui para cima dela pulando as primeiras excitações, sem a menor sutileza nos gestos, sem a delicadeza do tato, sem o mais tímido momento de preparação, querendo apenas "fazer" o meu papel de homem descolado porque já fazia sexo com as mulheres da rua dos Gusmões. Foi isso mesmo o que aconteceu: mal cheguei ao orgasmo com a sensação de me livrar heroicamente de um líquido, naquela noite, mais grosso e pegajoso, fui embora com a certeza de ter cumprido uma tarefa necessária e urgente, caminhando alguns passos na contramão da depressão. Desde sempre, mesmo tomado pela crise depressiva e inflacionado de remédios que me deixavam abobado e sem senso de direção, nunca recusei – certamente por uma questão de temperamento – a menor possibilidade de me curar daquele mal repentino que eu, os amigos, os parentes e mesmo os médicos, por muitos anos, jamais diagnosticaram como depressão. E eu queria tanto ouvir um nome que me incluísse no leque de doenças sofridas por pessoas normais. No trânsito do silêncio da medicina e dos palpites de amigos curandeiros ou vizinhas prosaicas que sinceramente queriam o meu bem, desde a minha primeira crise até o passado não muito remoto, eu tomei porções de ervas milagrosas, fui benzido dos pés à cabeça, visitei igrejas hospedadas por santos das causas impossíveis, centros espíritas, comunidades de umbanda e quetais.

Não consegui me identificar com quase nenhum ritual e, mesmo agônico e entediado, fingia propositadamente acreditar na possibilidade da cura trazida por mãos concretas ou gestos transcendentais.

Aceitava qualquer conselho ou a mais ingênua sugestão para me livrar do pânico de estar vivo e não conseguir existir dentro de mim. Dizem que nos estados depressivos há alteração no neurotransmissor, aumento e déficit de neurônios, elevação de hormônios fabricados pela tireóide, distúrbio na produção de serotonina e acréscimo na produção de prolactina que provoca no deprimido a ansiedade à beira do caos e a síndrome do pânico em tempo integral, aumento e diminuição do fluxo sangüíneo que chegam a distorcer os sentidos – especialmente a visão –, as células cerebrais ficam mais sensíveis, a respiração acelera até o limite do fôlego e os batimentos cardíacos parecem que prenunciam um estouro ou uma súbita parada do coração – tudo isso e muito mais como fenômenos da doença ou sintomas meramente acidentais. Não sei, até hoje não sei... Leio, ouço, procuro entender essas informações e, de verdade mesmo, busco auscultar a minha dor. Só sei e posso afirmar que desde sempre a depressão – de início não identificada – e os efeitos colaterais provocados pelos remédios me transportam para estados suportáveis e insuportáveis de um definitivo inferno astral. Tremo permanentemente e perco a sensibilidade das mãos, fico com a boca tão seca, a língua grudenta e meio imóvel, que falo com dificuldade e, por vezes, mal consigo me expressar, a libido se intimida, o aparelho digestivo funciona descontrolado, o intestino fica preso e os gases invariavelmente não param de se multiplicar, sinto tontura, o corpo bambeia e as pernas não obedecem à direção que quero me dar. Esqueço o nome de pessoas quase íntimas, fatos ocorridos há cinco ou dez minutos e contos ou outras narrativas publicadas há muito tempo ou que recentemente escrevi. Transpiro bastante na nuca, no peito, nas costas e sinto simultaneamente calafrios. Vou da sala para o quarto buscar um objeto qualquer e permaneço parado a meio do caminho sem me lembrar o que ia buscar. Perco totalmente a fome, a vontade de me mover ou de ficar parado, a curiosidade de abrir a correspondência ou de ler as notícias de jornal. O estômago dói, a cabeça dói e as articulações parecem fazer questão absoluta de doer. Tomo susto diante das coisas mais banais, não agüento ficar na cama, trocar as roupas ou até mesmo assoar o nariz. Vivo uma estranha e assustadora sensação de perda, como se a minha história estivesse caindo dos bolsos, escorrendo por entre os dedos, se esvaindo nas coisas mais banais. Basta perder um cartão, uma anotação nada importante, um lembrete qualquer. Nessas horas esquecer de retornar um telefonema, onde deixei o maço de cigarros ou o nome de alguém se tornam um tormento tão insuportável que chego a perder a respiração. O engraçado é que na consciência lógica nada tem importância, porém na expectativa da perda eu sinto que estou perdendo a vida com o simples extravio de um pedaço de papel. Sempre foi assim desde a minha primeira depressão de fato, quando eu e todas as pessoas que me cercavam não tínhamos a menor idéia do que fosse. Ou se alguém conhecia a doença, fosse ele médico ou curandeiro, nada disse para mim. De qualquer forma, por todos esses sintomas – na época estranhíssimos para mim e para todo mundo com quem eu convivia – já nessa minha primeira depressão de fato, uma cunhada que era casada com um meio irmão meu e trabalhava como enfermeira propôs ao meu pai procurar um psicólogo que tratava de pessoas meio malucas mas também de esquisitices que atacavam pessoas normais, principalmente jovens como eu que provavelmente devia estar passando por uma confusão provocada pela idade ou, quem sabe, um pequeno distúrbio mental. Meu pai era caminhoneiro, sem tempo e vivência para entender ou mesmo aceitar esquisitices nos habitantes da Terra e muito menos "no seio" da família, mas não suportava ver um filho mergulhado num mal tão estranhamente escorregadio e ao mesmo tempo tão concretamente real. O Jorginho estava a cada dia mais doente e o filho dele parecia morrer dia-a-dia por um simples problema de "cabeça", que ele não tinha a menor condição para poder compreender. E, além de tudo, ele também não tinha dinheiro para pagar as consultas que se restringiam a uma conversa à–toa de quem não tinha o que fazer. Mesmo assim resolveu encarar aquela lenga-lenga como última tentativa para me salvar e, não tendo a menor condição de entender um tratamento que só receitava palavras, sempre estranhando as minhas crises cada vez mais introspectivas e sem razão de ser, se fez de entendido e, inventando uma naturalidade também impossível, me mandou para o divã. Não me lembro do nome do médico, só sei que o consultório ficava na avenida Nove de Julho.

Ele era um homem corpulento, sempre de gravata, exalando saúde e higiene, além de ser um excelente ouvinte. Na primeira consulta eu procurei contar tudo: a dificuldade de dormir e o medo de acordar, a falta de apetite e o tormento de não saber como existir, a angústia infinita e o desejo agônico de continuar a viver, a ansiedade por qualquer tipo de ajuda e o pânico de não encontrar caminho algum, a tristeza a cada dia mais intensa e o tormento de não ser entendido por ninguém. Fiz um relato nos seus mínimos detalhes e, no meu desespero, repeti o tempo todo que eu agüentava tudo, menos aquele susto..., aquele susto de eu me ver por dentro e não saber nem sentir quem eu era e o que havia de errado dentro de mim. Lembro que na ocasião eu tinha ouvido em algum lugar que, em casos como o meu, era possível um tratamento por eletrochoque e eu queria qualquer tipo de remédio e mesmo toda a eletricidade do mundo para poder voltar para dentro de mim. Ele riu. Depois, muito calmamente me propôs um tratamento centrado na interpretação dos meus sonhos e eu aceitei na hora a iniciativa tão segura dele como aceitaria qualquer outra saída que me tirasse daquele pânico. Começamos o tratamento com encontros semanais.

Eu dormia, sonhava, acordava no meio da noite, ficava três minutos com os olhos fechados memorizando os sonhos para não me esquecer de nada, escrevia as fantasias e os pesadelos que me visitavam à noite, levava as minhas viagens noturnas para ele e começávamos a conversar. Sonhei bastante, anotei tudo, me procurei demais.

Confessei em todas as sessões, como quem implora os ouvidos de alguém, que aquele susto insuportável continuava fazendo parte de mim. O tempo passou, nos demos muito bem e um dia ele me perguntou: " Então, Jorge, como você está se sentindo?" E eu respondi: "Bem, acho que melhor. Já sinto fome, estou trabalhando e estudando, já consigo até ler um pouco e vou ao cinema sozinho. A única coisa que não passa é esse susto que ainda está aqui." E ele então me interrogou meio espantado: "Que susto?" E eu explodi: "O susto, porra, que eu conto toda a semana para você. Esse meu susto que está toda hora dentro de mim!" E ele, se fazendo de desentendido, pôs um ponto final no nosso diálogo com a mais injusta exclamação: "Susto do eu! Não estou lembrado, explica melhor esse susto...!" Fiquei decepcionado e não encontrei uma palavra para exprimir a minha indignação. Esperei terminar a sessão quase calado, bati a porta e nunca mais voltei. Só com o tempo eu viria a entender que o meu médico se fez de esquecido para eu esquecer aquele fantasma abstrato e medonho que, de fato, era apenas um estado sintomático e já não me assustava tanto ou talvez nem existisse mais dentro de mim. Fiquei bom, entrei novamente na vida, voltei a existir. O tempo passou, ele sempre passa. E eu passei muitos anos sem sentir o menor estado depressivo, cheguei até a tirar da memória a crise anterior. Mas um dia ela, a depressão, me visitou novamente, veio assim de repente, sem dar sinal algum. Eu tinha vinte e sete anos e distraidamente me achava inteiramente feliz. Voltei a me estranhar, a estranhar as pessoas, a ficar sozinho dentro de mim. Fiz análise, tomei calmantes em diversos tamanhos e miligramas, morri mais um pouco querendo muito continuar a viver. A travessia foi a mesma nessa crise e numa outra que me aconteceu quando eu já era casado e tinha dois filhos pequenos que, pulando no meu colo ou acordando aos berros durante a noite, eram uma realidade concreta demais. Sofri os mesmos sintomas, talvez um pouco menos agônico por ter a acolhida da minha mulher, a América, em tempo integral e mais os filhos que me olhavam sem a menor estranheza, fazendo com que eu me sentisse por breves momentos um pai absolutamente natural. Em todas as minhas crises eu fiz análise, numa ocasião até três vezes por semana, e me parece que nas primeiras sessões os médicos ficavam intrigados ou ao menos curiosos quando eu contava o episódio de Jesus. Todos falavam pouco ou menos do que eu esperava e, quem sabe, essa minha afirmativa do comportamento deles seja mera impressão. Todos foram também humanamente próximos, porém nenhum deles chegou a diagnosticar que eu sofria de depressão – nem os estudiosos de Freud nem os adeptos de Lacan. Só um pouco depois dos quarenta anos, eu tomei conhecimento da minha doença e fiquei sabendo que havia os chamados antidepressivos, drogas especialmente indicadas para compor um tratamento medicamentoso contra o meu mal. Foi a primeira vez que eu respirei feliz e aliviado com uma única palavra: depressão. Devo metade dessa felicidade à minha amiga Lídia Izecson de Carvalho que, acompanhando o meu mutismo e meu estado de pânico permanente e silencioso, fez questão de marcar uma consulta com seu marido, o doutor Vicente Augusto de Carvalho, a quem eu devo a outra metade da minha alegria quando ele me disse: "Jorge, você está sofrendo uma depressão e tem remédio para ajudar você." Foi não menos do que plenitude o que eu senti por um momento ao ouvir que o meu mal tinha um nome e o meu remédio se chamava Tofranil. Comecei a tomar as pílulas no mesmo dia e, evidentemente pela expectativa da cura, acordei na manhã seguinte me sentindo muito melhor por força da esperança, do otimismo e da simples motivação, visto que no espaço de algumas horas um antidepressivo não capaz de apresentar benefício algum.

Foi nessa mesma época que eu comecei a fazer análise com o doutor Antonio Austregésilo Neto e criei com ele um diálogo tão próximo e tão distante dos dogmas que dura até hoje dentro ou fora da minha depressão. O que me agrada nele, além do companheirismo humanamente generoso, é um certo relativismo de pensar comigo a natureza humana, sem com isso me catalogar num leque de modelos ou mitos psicoterapêuticos, muito embora jamais esqueça, com tal atitude, que eu sou individualmente o Jorge e, percorrendo as mais diversas faces da doença, eu sofro de um mal específico que se chama depressão. Outras crises vieram e eu me tratei com um ou dois outros psiquiatras que foram mudando a dosagem e o tipo dos antidepressivos segundo o tamanho elástico e escorregadio da minha dor. Nesse trânsito, ansiando sempre por encontrar um norte dentro de mim, eu tomei várias outras drogas – fui do lítio, passei por algumas pílulas da moda, até chegar ao Tegretol. Não nego que elas ou algumas delas tenham me trazido algum benefício – enquanto agente depressivo eu sou um sujeito receptivo que vai dos alopáticos às ervas de São João.

Mas sem nenhuma prepotência, por ter relativa consciência de todas as depressões que sofri, tenho também de me convencer, "sobretudo por força da experiência", que elas fazem o percurso determinado por elas mesmas e esse percurso acontece sem tempo definido de duração.

Sinceramente, sinceramente mesmo parece que a minha doença estabelece ou estigmatiza por ela mesma o seu próprio período de expiação. É evidente que a luta contra a doença depende de mim mesmo e de toda a ciência que possa me acolher, porém essa dor abstrata quase nunca revela o seu possível perfil. E assim o tempo vai passando, ele sempre passa – e eu vou por esses caminhos imprevisíveis da vida lutando e pulverizando as crises depressivas que parecem não se ajustar a nenhuma categoria dos males ou das patologias humanas mas que, para a minha alegria e por certo de muitos outros depressivos, adormecem por longas temporadas permitindo que eu viva a felicidade de viver (esquecido de mim mesmo) o cotidiano inestimável de supostamente eu saber quem eu sou dentro de mim. Para chegar a essa enseada, ainda que provisória, em muito me ajudou o doutor Moacyr Bustamante, um neurologista solidário e cientificamente perspicaz, que há mais de vinte anos vem estudando e encontrando respostas para doenças supostamente neurológicas sob o viés da depressão. Como se vê, nessas minhas confissões, de amigos inteiros eu não posso me queixar, entre eles o Marcelo e a Isabel com quem eu converso, depressivo ou não, quase sem precisar falar. É um encontro de iguais carregado de ressonância amiga, uma voz na outra, as duas querendo se ajudar. Ele me diz que um dia a dor se cansa da gente, é só perseverar. Ela clama do outro lado da linha que não existe dor que seja maior do que nós. Isso acalenta, vislumbra um destino, talvez seja o remédio melhor. Mas esse mundo circular não tem apenas vozes amigas – também acontecem vozes que, com a melhor das intenções, juntam o escritor com o depressivo e essa alquimia não me faz nenhum bem, Sobre isso acho que cabe aqui uma pequena digressão. Poucas coisas me irritam tanto como alguém que se aproxima de mim segredando uma história ou um fato pitoresco, excêntrico às vezes, para o meu próximo livro. Isto também acontece quando um outro alguém solitário e sem assunto me diz em tom exclamativo que a depressão é quase uma condição para um terceiro alguém ser escritor. Embora haja afirmativas no sentido de comprovar a grande incidência de escritores depressivos como Virginia Woolf, Hemimgway, Mário de Andrade, Clarice Lispector e tantos outros pela própria natureza densa e extenuante da escrita, este não é o meu caso. Eu devo ter sido e sou depressivo desde sempre e, portanto, muito antes de viver a experiência também imperdível de escrever.

Eu sei que "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta", como o Fernando Pessoa tão acertadamente definiu. Na verdade não se pode negar também que ações e gestos mais subjetivos e, sobretudo, introspectivos como o ato de escrever – considerado por Ricardo Piglia uma das experiências mais intensas e ponto limiar do estado de concentração – podem eventualmente fazer emergir manifestações depressivas ou até mesmo atitudes suicidas pelo próprio mergulho visceral e, por vezes, solitário da natureza criativa. Entretanto, no meu modo de ver e auscultar os estados depressivos, isto não é de maneira alguma um estigma só dos ficcionistas ou artistas que, estereotipadamente, são entendidos como portadores de uma "sensibilidade mais fina" ou "pessoas sensíveis demais". Escrever literatura ou criar de um modo geral resulta de perseverança, paixão por um determinado ofício como tantos outros, quando muito, exercício obstinado de uma vocação. Mesmo a palavra talento me parece exagerada e ingênua porque parte de uma concepção pouco questionável – de caráter marcadamente seletivo e até mesmo elitista – de que o bom escritor já nasce como realidade dada, sem considerar que os trabalhos artísticos não são apenas de ordem biológica, emocional, sensitiva ou exclusivamente de natureza espiritual. Criar decorre sem dúvida de uma subjetividade singular como outra qualquer, mas antes e sobretudo é história da própria história do sujeito criador "sentindo, experimentando, tomando consciência e absorvendo" uma porção do real. Ele é um ser que constrói a história e não é um escolhido pelos desígnios da pulsação sangüínea ou do recorte simétrico ou assimétrico das curvas emotivas do seu obstinado coração. Já li ou ouvi em algum lugar – e venho repetindo tanto que de alguma forma parece que fui eu que escrevi – que "escrever não é um ser de desejos, escrever é um desejo de ser". E esse ser desejoso labuta, persevera, é capaz de se exaurir fisicamente motivado pelo desejo de tornar matéria coletiva a sua experiência de grupo ou a sua vivência humanamente individual. Essa história de arte solitária, de escrever para si mesmo ou de impulso involuntário para a criação pode no máximo ser a parte mínima da história – o que conta mesmo é a vontade de partilhar com o mundo ou comungar com ele o sentido da solidariedade da palavra a serviço da vida, portanto gesto coletivo, diálogo, socialização de um saber. Aliás, isto não é mais novidade nenhuma desde o dia em que Mário de Andrade clamou: "/.../ ninguém escreve para si, a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve para ser amado, para atrair, para encantar." E talvez seja este um dos gestos mais humanamente políticos da arte: não ser um ser ensimesmado, mas em si mesmo ser para o mundo. De preferência, por necessidade e urgência, escavar do imaginário a palavra generosamente coletiva e inquieta, capaz de pôr em relevo que a arte anda sempre sonhando no mundo mais concreto o sonho de todos nós. E mais Mário de Andrade, que nunca é demais:" A arte, por mais pessimista que seja, é sempre uma proposição de felicidade. E a felicidade não pertence a ninguém, não, é de todos". Voltando para a minha depressão, é bom reiterar mais uma vez que escrever é consciência de linguagem e consciência de linguagem é palavra de fato, é fato poeticamente real, coletivo e social. Podia me estender um dedinho a mais lembrando Clarice Lispector para quem a escrita literária é no sentido mais profundo um gesto de amor: "A gente escreve como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que escreve. Escrever é um ato solitário, solitário de um outro modo de solidão. Escrevo com amor e atenção e ternura e dor e pesquisa e queria de volta, como mínimo, uma atenção e um interesse".

Entretanto fiquemos por aqui porque a indiscutível solidariedade da literatura solicita mais palavras e mais papel. Pois muito bem: no início de 2004 eu tinha terminado um romance que fazia referências à obra de Clarice Lispector e, por diversos motivos, não acertava na publicação. Escrevia também uma biofantasia de Charles Chaplin e de repente a luz se apagou ou foi a caneta que não alcançava a simetria da página ou, melhor dizendo ainda, eu não conseguia fisgar a mímica desse adorável vagabundo com palavras que revelassem a sua caminhada de costas que é indiscutivelmente o seu melhor perfil. Como se diz, "fiquei travado" e entrei na mais profunda depressão.

Mas essa minha última crise depressiva, como todas as outras, não teve nada a ver com um fato concreto que eu pudesse identificar. Portanto Chaplin só fez dar aquele simpático chute no traseiro do outro, no caso o meu, para fazer emergir a visitação da minha velha companheira que só aparentemente parecia ter mudado de residência para sempre, porque no fundo e profundamente sempre esteve, silenciosa, hospedada em mim. Essa vez foi a pior de todas: perdi onze quilos em dois meses e, não cheguei a desejar, mas, em alguns momentos mais intensos do pânico, vislumbrei a possibilidade da morte sem a menor vontade de morrer. Não tenho nenhuma tendência ao suicídio – mesmo depressivo continuo motivado pela vida ou agonicamente ansiando por voltar a existir dentro de mim. De qualquer forma a morte se mostrou em flashes como um ponto final por mais remota que fosse. Num certo dia pela manhã, acordei e me olhei no espelho. Eu não tinha a menor familiaridade com as minhas feições e a minha fisionomia me pareceu o próprio rosto da depressão. Lembro que eu falei com a língua pastosa e atiçando a raiva de me ver possuído por uma doença tão presente e com a mesma intensidade sem a menor direção: "Vem e fica mais forte até eu não agüentar mais". E ela veio, ficou gorda, ao mesmo tempo esfíngica, quase-quase me fez desistir. Mas só quase-quase, não foi mais fundo porque, mesmo sentindo mais uma vez o terror de não reconhecer quem eu era dentro de mim, eu ainda titubeava nas pernas procurando me agarrar ao extenuante trabalho de continuar vivo e não deixar correr pelo ralo do banheiro – me refiro ao ralo de fato mesmo – a experiência imperdível de viver. Um pouco mais calmo, olhei depois de esguelha para ela no espelho, lembrei o suicídio de Virginia Woolf, de Pedro Nava, de Ernest Hemingway e sobretudo imaginei os suicidas anônimos que nem sequer eu cheguei a conhecer. Vivi momentaneamente um sentimento de solidariedade de iguais, o que não me fez muito bem porém não me deixou pior. Lembrei também que havia parado há meses de tomar um dos remédios antidepressivos, o Amytril, sem o respaldo do doutor Moacyr Bustamante, desde sempre, nas minhas crises a minha enseada maior. Me fiz de macho, me pus de costas para ela, fumei bastante fingindo que a malvada não existia por ser vivência tão abstrata, uma glândula desnorteada, uma simples química minúscula em estado de subversão. E, depois de tantas depressões, bastava eu não perder de vista que eu não era eu por uma simples questão metabólica que me visitava por um tempo e esse mesmo tempo havia de me devolver, de uma hora para outra, para mim. E mais: se eu soubesse fingir que a vida acontecia naturalmente ou se eu conseguisse me distrair dela por um período por mais indefinido que fosse, um dia eu estaria de volta dentro de mim. Dei mais uma vez um tempo, pedi a acolhida da minha mulher, a América, e ela incondicionalmente, sempre sem espantos ou atenções exageradas que tornariam o meu mal maior – porque eu me via e me diagnosticava pelos olhos e reações dos outros –, viveu e conviveu comigo da mesma forma prosaica e afetiva e, reaprendendo novamente os mais variados estágios e gradações do meu "estar deprimido", me disse silenciosamente: "Eu estou aqui". Freud talvez dissesse que ela ocupou o papel da minha mãe – e daí? Uma Jocasta tão pouco dramática e, por razões óbvias, para mim nada incestuosa, ao menos na consciência lógica não poderia me tornar um Édipo capaz de me cegar ainda mais. Resolvi não tomar mais remédios – de início esperei quase naturalmente a dor se cansar da minha aparente indiferença, continuando a trabalhar e a cumprimentar as pessoas, ser simplesmente um depressivo com hábitos e gestos quase normais. Não deu: no período de uns quinze dias eu já me estranhava de corpo, alma e divindade e mergulhava no estado de não me reconhecer minimamente dentro de mim. Primeiro vislumbrei uma luz no fundo do túnel tomando Hipérico e Neuleptil, depois dobrei e redobrei os doses de Frontal, por fim caí de quatro e marquei uma consulta médica para "ontem". Fui afundando, afundando, afundando e, do mesmo modo que me enfastiava tomando um liqüefeito copo de água, recomecei a travessia mais uma vez insuportável de ter medo das paredes e das ruas, dos olhos dos outros e da solidão dos lençóis, de calar o que não podia ser tão abstrato e de falar para não tornar as "coisas" mais reais, de dar aula e não dar, de morrer ou seguir a vida naquelas condições, de deixar escapar a existência e de não suportar ficar as vinte e quatro horas do dia dentro ou fora de mim. Retornei aos antidepressivos, rezei nas escadarias de igrejas imaginárias, chorei sem a menor razão tocável, liguei ontem, hoje e amanhã para o meu médico querendo aumentar ou diminuir os remédios, parei de defecar por dias e fiz clister até na alma, confessei intermitentemente para amigos íntimos e simples conhecidos que estava muito mal ou me sentia assim-assim. Liguei para o meu amigo Marcelo e para a minha amiga Isabel suplicando palavras que implodissem o pânico real e persistente ou ao menos preenchessem momentaneamente o mais completo vazio. Uma outra amiga, a Cecília, me telefonava diariamente para saber como eu "ia indo" e eu buscava palavras impossíveis que dissessem que eu estava melhor.

Prolonguei ansioso as conversas, vivi a trégua instantânea e miserável de alguém que atenua a sua dor ouvindo notícias de casos mais trágicos do que o seu. Olhei mais os desvalidos e os aleijões da vida comungado com a dor do outro mas, sem dúvida, por força da covardia e do egoísmo doentio. Desliguei as ligações telefônicas, fui aos poucos morrendo na pré-morte de não conseguir existir. Fiquei meio falso, lacônico e inflamado dizendo ou desdizendo coisas que eu sentia ou não sentia sem o menor senso de direção – sinceramente fui morrendo aos poucos e laboriosamente dentro de mim. O que mais fazia era pegar a mão da minha mulher e perguntar num misto de confiança desconfiada: "Eu vou ficar bom, não vou?" E ela: "Eu não tenho a menor dúvida, é só mais um pouco, agüenta um pouquinho mais." Entendi a eternidade dos minutos, fiquei momentaneamente feliz por ela me dizer "Vai em frente", sentindo uma vez ou outra a velha ira, que para mim é uma raiva maior, quando percebia ou pressentia que ela, tão paciente, buscava me passar que a depressão era um terrível estado insuportável, porém possível e até certo ponto normal. "Normal" permanecia ecoando nos confins de mim mesmo e logo eu ficava envergonhado de vampirizar a tolerância de um alguém tão solidário e generoso: ela. Na maior parte do tempo, como sempre, me senti só, morri diariamente acordando sem o menor motivo para existir. Tive os mesmos calafrios, suores repentinos, sede de água, sede de rotinas e de banalidades, sede de mim. Secura na boca, língua pastosa, palavras esvaziadas de significado, vontade e falta de vontade de dormir. Voltei a tremer com uma leve folha de papel ou com um dicionário nas mãos, tomei laxantes, tentei retomar a história de Chaplin, achei bobagem e não senti o menor ânimo para escrever que ele simplesmente se tornou o maior cômico do cinema e morreu prosaicamente num dia igual a outro qualquer. Morri mais um pouco escavando na marra um frágil desejo de continuar a existir. Não pensei uma vez em suicídio porque me apavora a mais tênue vontade de morrer e depois a depressão me matava devagarzinho como um torturador super-especialista na arte de ir matando bem de mansinho, poro por poro, célula por célula, pulsação por pulsação, até o fim. "Vai passar, não vai?" "Eu tenho a certeza que vai." "Mesmo?" "Mesmo, mesmo sim." Não passava, era mais um dia, mais uma semana, mais a eternidade de um lapso de tempo ou da memória de um mês. "Pai, você está melhor?", meu filho me telefona deixando a generosidade escoar pelos fios. "Quer que eu vá com você dar aula?", minha filha me pergunta, decidida e cumpliciada com a minha dor, e mais os olhos dentro de mim. "Estou, não estou, quero, não sei...", eu digo e desdigo decidindo sem decidir. Apenas para fazer alguma coisa, para testar se as palavras ainda saem da minha boca, se os braços e as pernas ainda conseguem se mexer. Acordo dopado, levanto dopado, morro dopado que é a maneira mais intocável de se deixar morrer. Não deixo! Escovo os dentes, ainda tremo muito, acidentalmente me corto com a gilete, tomo banho sem a menor noção do meu corpo, passo sabonete, esfrego as axilas, a pele não é minha, a espuma corre pelo ralo, eu vou junto com ela e permaneço com o mesmo tamanho com que acordei. Visto uma roupa bem combinada, insisto em me vestir bem. "Quando foi que eu comprei essa roupa?" Não me lembro, eu não era eu naquele dia e hoje também eu não sou eu.

Tomo remédio, mais calmante, mais antidepressivo, mais bloqueador da minha hipertensão. Tiro um sarro telegráfico, percebendo a minha paradoxalidade existencial que, para Drummond, é a nossa porção mais humana, carregada de contradição – no meu caso, tomo antidepressivo para escalar minimamente a vida e tomo calmantes, pílulas e pílulas anti-hipertensivas para ficar mais ao nível do chão. Como dói a rotina do trânsito, as pessoas atravessando a rua, a faxineira lustrando a mesa da sala e eu contemplativo querendo tanto viver e entrar na banalidade do cotidiano, mas permanecendo agônico dentro e fora de mim. O tempo passa, aos poucos vou olhando mais a realidade de fora, esqueço o corpo, percebo que permaneci meia hora lendo um livro, faço força e volto ao meu grupo de teatro, começo a escrever esse texto, no meio ou agora tenho uma recaída não tão feroz, insisto e continuo as minhas confissões, fico melhor, esqueço de mim, olho a vida e estou quase dentro dela. Não! Eu sou ela e ela existe dentro de mim. Como é bom voltar à vida, como é bom simplesmente existir. Vou tomar um copo com água, vou tomar o único copo com água, vou ficar como água cheia de água. Graças a Deus, ou a mim, ou à vida já estou vivendo a experiência imperdível de viver. E é por isso tudo que eu vou terminar esse texto assim... Devido à carência de profissionais especializados nos convênios e sobretudo nos hospitais públicos, à quase impossibilidade de tratamento continuado, ao preço exorbitante das consultas e da maior parte dos antidepressivos e de outros medicamentos, devido também à falta de poder aquisitivo da imensa maioria da população e à precariedade de estudos mais pontuais e objetivos, sendo que alguns poucos são por vezes injustamente confundidos com os livros de auto-ajuda, por tudo isso - enquanto a revolução social não acontece com hora e lugar pontualmente marcados, o que nos cabe é agarrar a vida e implodir, mesmo que seja com o berro cortante da dor, os estados depressivos dessa doença ignorada por tantos "sofredores" e ainda tão flutuante, elástica e abstrata nos domínios da ciência em geral. A depressão enquanto doença existe e isto é um fato indiscutível. No fundo, ela existe e só. A depressão espreita, se move vagarosamente como um minotauro que se aproxima invisível, uma espécie de placenta aderente que, silenciosa e pacientemente, se planta em estado de vigília dentro de nós. Como antes do colapso depressivo parecemos estar no fluxo da vida, só com os sentidos muito aguçados percebemos que ela vai fixando moradia no corpo material e imaterial que supomos, até então, ser anatomia do nosso domínio, sem atentar com certeza que ela já está lá. Ela pode levar anos para assentar moradia em nosso território revelando subitamente seu rosto agudo, implacável e inexorável mas, quando se mostra, parece uma rocha que se planta no centro do que possa ser a nossa individualidade e, não de vez em quando, esparge porções arenosas e pontiagudas nas nossas vontades e desejos que até então, por um tempo imprevisível, nos davam a impressão de que ela havia ido embora para nunca mais voltar. Por isso volto a dizer que a depressão não é qualquer coisa mensurável – por ora ela existe e só. E, por ser também essa presença intocável que não tem tempo e lugar definidos, muito embora provoque em todo o nosso ser a materialização do menor gesto em alquimia da dor, da impotência e do horror, penso (por conta da minha vivência de depressivo) que o único caminho para enfrentar a sua exuberância e plenitude que parecem uma papisa malvada e obstinada na arte de nortear a vida sob o signo do pavor – é desafiá-la com a própria constância e agudeza dela que, como contraponto, deve ser a obstinação de viver. Nesse caminho a grande arma é escavar do próprio âmago a perseverança e a coragem de fazer "alguma coisa", não se deixando de forma nenhuma se sucumbir ao seu lento e paciente ofício de nos fazer morrer.

Morrer que de fato não se trata apenas da morte física que é finitude palpável e portanto menor. Quando me refiro à morte depressiva, quero escancarar o enigma da morte que acontece antes do último sopro de vida, da morte que já preexiste eficaz e laboriosa no ser que desiste inexoravelmente da vida e morre diariamente deixando de existir. Se é possível esse caminho? Nem sempre, em alguns casos quase nunca, mas me parece a única enseada da salvação: ainda que paralisado e sem a menor noção de um norte, AGIR. No limite, se cercar de amigos, aceitar a acolhida da família, dividir com o outro a dor. Se possível ou impossível, ao menos tentar vislumbrar o sofrimento coletivo, levantar da cama em busca até do que não existe, comer sem vontade, transitar por ruas e praças aparentemente sombrias e indesejáveis, cumprimentar os outros mesmo que só com a boca, chorar debaixo do chuveiro, gritar e calar ao mesmo tempo, dar as costas para o sol e para as estrelas, dobrar várias esquinas e parar. Beber uma bebida impossível, ouvir ou fingir ouvir histórias fantásticas ou prosaicas de gente anônima, atender ou desligar o telefone, abrir todas as brechas da indiferença, dar esmolas momentâneas e outras vezes não dar. Ir à igreja e, mesmo sendo cético, tocar um altar. Comer chocolate, muito chocolate e não escovar os dentes para guardar a memória gustativa do cacau. Ter um médico amigo mesmo à distância que possua bip e celular, fazer ginástica, misturar com yoga, alongamento e kung-fu. Dar conselhos desaconselháveis e dar também a mão a um certo alguém. Pensar no Brasil, nos brasileiros com ações políticas e, se possível, com critérios de país. Tomar os medicamentos, fazer análise e silenciar... Ter de memória frases poéticas, contar metade de um bom filme, entrar e sair de exposições. Se pentear, desenhar milimetricamente a risca bem no meio dos cabelos, depois se despentear serpenteando um outro penteado qualquer. Escutar os velhos, as crianças e as pessoas generosas para talvez amanhã não precisar escutar. Ter um outro projeto político, de preferência sem partido, partindo apenas do coletivo social. Conversar muito, ligar para conhecidos e desconhecidos e desabafar. Ir sempre ao trabalho ao menos como um ofício de ida e não trabalhar para tentar, mesmo duvidando, fazer coisa melhor. Não fugir de nada por medo, olhar o medo, entrar no medo e se acostumar a não ter medo de se assustar. Ficar quieto, silenciar novamente e agonicamente AGIR. Enfim, AGIR que numa palavra significa "amar" a experiência única e imperdível de viver ou o próprio acaso da existência.

Amar "se amar", amando mesmo que seja a fórceps o que deve ser amado e paradoxalmente odiando uma ou outra porção de vida que se deve odiar. Amar, ainda que se esteja completamente exaurido por dentro e seja preciso inventar e reinventar o amor. Não me pergunte mais nada que eu não sei: amar o desejável oras, ou o inóspito como disse o Drummond e também o indesejável que por vezes é necessário e mais complicado mas, na pior das hipóteses, se faz também como tarefa do amor. Amar o conhecido e sobretudo o desconhecido como parte virgem da vida, amar para não ficar não amando direito ou amar em diversas direções, amar para não permanecer desamado na cama ou amar para dormir cheio de sono ou no limite do sentimento humano dessofrer. Amar o desconforto de você ser apenas você mesmo na descoberta possível ou impossível de algo a mais. Amar as caminhadas, andar, correr, desembestar em busca da endorfina que em estados de euforia se encontra facilmente no ar.

Amar ler um livro querendo ou não querendo, na metade da leitura não gostar tanto dele, jogá-lo fora e comprar ou pedir emprestado outro para quem sabe ler até o fim e gostar. Amar a chuva que chove fora de casa - se possível e isto parece imprescindível - sem esquecer as enchentes e os desvalidos que ficam sem teto para morar. Amar fazer um bolo, misturar todos os ingredientes com paciência ou impaciência sem deixar de bater muito bem. E que fique bem claro que é amar desse jeito que eu estou explicando: AMAR PARA AGIR, AGIR PARA AMAR.

Amar para exercer a parte mais humana da vida ou obstinadamente para entrar no exercício antidepressivo do amor mesmo que sem motivos, só para não desistir de viver ou não deixar de existir nesse nosso corpo de cada dia que talvez, não por acaso, sofra dos malefícios que podem resultar em benefícios da depressão. Em benefícios? Isto mesmo. Mas não e nunca porque a depressão seja uma experiência privilegiada para aprofundar, por força da intensidade dessa crise indecifrável, os sentimentos humanos ou a vivência inestimável de "ser", como tantos depressivos e não depressivos me alertaram em tom acentuadamente cristão. Não, não e decididamente não.

Não porque a sabedoria ou o aprofundamento da existência é perfeitamente possível num feliz encontro entre conhecimento e prazer. É mais que simples: amar porque o amor que eu procurei revelar é o maior contraponto ou bálsamo ou antídoto para desafiar a depressão, e ela existe de fato e só. Você está me perguntando se eu me curei? Parece que eu ouvi essa sua pergunta. Se eu me curei...?! Não sei, não sei mesmo. Só sei que estou escrevendo sobre depressão e isto é como limar uma rocha com algodão e olhar cara-a-cara para um mal que até o presente momento não conseguiu ser maior do que eu. E isto também é uma forma de desafiar a doença no mesmo circuito de AGIR. Mais do que essa minha tentativa de expressar em palavras um estado doentio que pode nos matar como aquela pré-morte que pacientemente vai devorando e absorvendo o menor impulso de vida na mira de um fim, sei que hoje eu não fui um depressivo e amanhã eu e tudo o que possa acontecer à minha volta, eu e o mundo, nós dois veremos juntos o que é possível e impossível se fazer. Afinal a depressão até hoje, para mim, não é alguma "coisa" tocável, mensurável, algo que se possa definir... Ela não é nada e é tudo...

E, até o ponto final dessas minhas confissões de um depressivo otimista, a depressão ainda não é..., ela existe e só. Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura Brasileira e escritor.

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